Teatro do Movimento

Conheça o Teatro do Movimento

O Teatro do Movimento foi desenvolvido por Lenora Lobo para favorecer o processo de criação e ensino da dança. O método tem sido usado por bailarinos, coreógrafos e educadores em busca de novos caminhos para a dança.
Sua genealogia conecta-se a dois mestres do pensamento moderno ligado ao movimento humano: Rudolf Laban e Klauss Vianna, que foram os precursores de um pensamento em dança que se caracteriza pela consciência do movimento. “O Teatro do Movimento homenageia esses mestres do pensamento sobre o corpo. A novidade é a sistematização”, diz o jornalista e professor Marcelo Avellar.

O método está sistematizado em duas publicações assinadas por Lenora Lobo em parceria com Cássia Navas: Teatro do Movimento – Um método para o Intérprete-Criador e Arte da Composição – Teatro do Movimento (LGE Editora).

Como disse Cássia Navas no prefácio da primeira edição do livro que sistematizou o método, “o Teatro do Movimento ainda está em processo, como tudo o que realmente é processo pedagógico em sua acepção moderna”.
O Teatro do Movimento ancora-se em experiências vividas no dia a dia da Cia Alaya Dança – criada e dirigida por Lenora Lobo há duas décadas e que segue os pressupostos de sua idealizadora –; nas salas de aula onde os princípios do método têm servido de suporte pedagógico e nos circuitos acadêmicos em que o método vem sendo discutido e aberto a novas interpretações.
Sistematizado, o método cumpre um importante papel científico, destacado pela pesquisadora Helena Katz: Segundo ela, o Teatro do Movimento chega a um ponto de maturação, pois toda a experiência trazida das salas de aula agora está organizada e à disposição de educadores, coreógrafos e bailarinos.

Teatro do Movimento – Um método para o intérprete criador

Para compreender melhor os enunciados pedagógicos do Teatro do Movimento, é importante conhecer as sete premissas fundamentais estruturadas em pontos chave da consciência corporal e dos estudos do movimento. O método segue tais premissas. São elas:

  • Gravidade
  • Energia
  • Respiração
  • Pontos de apoio, força e compensação
  • Espaço interno e espaço externo
  • Projeção
  • Os três acentos rítmicos

Esses tópicos estão descritos em detalhes nos dois livros que tratam do Teatro do Movimento, principalmente em Teatro do Movimento – um método para o intérprete criador (LGE Editora, 2003). As premissas são inerentes a todo ser que se move. Elas servem para quaisquer sistemas e métodos de interpretação, permitindo leituras a conscientização em qualquer campo da atividade cênica.
O Teatro do Movimento amplia o olhar do criador e do educador ao fornecer elementos fundamentais para o mergulho nos meandros do movimento na dança e mesmo no teatro.
“Teatro e Movimento andaram muito tempo dissociados. O que Lenora Lobo nos propõe com sua experiência é um fortalecimento do indivíduo como intérprete-criador e responsável por uma dramaturgia que não se faz puramente narrativa, mas, sobretudo, orgânica, acionando diretamente o imaginário gestual brasileiro”, diz a bailarina e coreógrafa Ana Vitória.

O Triângulo da Composição

O Teatro do Movimento baseia-se em princípios-tríades, encontrados em diversas tradições e áreas de conhecimento, assim como na fundamentação: corpo, espaço e tempo, como se vê na dança.
O método traz outro olhar a essa tríade, concebendo o teatro e a dança como se fossem escritas ou composições cênicas interligadas a partir de três eixos fundamentais: corpo cênico, movimento estruturado e imaginário criativo.
De acordo com Lenora Lobo, cada eixo encontra-se em qualquer etapa da estruturação e aplicação do método, assim como em seus resultados em sala de aula, nos estúdios e no palco.
Assim, a composição seria a tradução do imaginário criativo, que se manifesta no corpo cênico, elaborando-se e expressando-se em movimentos estruturados.
Os três vértices separam-se somente no momento pedagógico para que se procedam estudos específicos; depois, voltam a se juntar na realização do movimento. Daremos aqui apenas um resumo para orientar na compreensão geral do Teatro do Movimento, sendo indicada a leitura dos livros para o melhor entendimento do método e suas implicações.

 

Corpo cênico

No Teatro do Movimento, o corpo é entendido como expressão do ser. Para a dança, o corpo é a origem, mas também o destino onde tudo se traduz e se manifesta; o elemento central do estudo do ator-bailarino.
O método propõe trabalhar o corpo do indivíduo a partir de suas histórias corporais, suas memórias, considerando as peculiaridades de cada um.
“Parece-me imprescindível que todo trabalho corporal comece com o contato e a observação do próprio corpo, numa tentativa de quebrar as couraças, sensibilizando as articulações, aguçando a percepção para que se esvaziem os padrões nele registrados na busca de um estado mais sensorial e atento”, diz Lenora Lobo. A metodologia descrita no Teatro do Movimento facilita esse estado corporal logo nas primeiras aulas, sendo que essa percepção fica cada vez mais aguçada ao longo do processo pedagógico. O processo permite a ruptura das resistências e dificuldades que muitas vezes caracterizam a atitude dos intérpretes-criadores.
O Corpo Cênico é um conceito do Teatro do Movimento e seu fundamento está na ideia de ‘movimento consciente’, definida por Klauss Vianna em sua pesquisa. No Teatro do Movimento, o corpo cênico é a fase de preparação conscientemente do corpo do intérprete-criador através de três abordagens:

  • Sensibilização – sensibilizar o corpo para iniciar o trabalho, olhar para si e para o espaço externo, estabelecendo conexões;
  • Conhecimento mecânico – o corpo torna-se o centro dos estudos (ossos, músculos, órgãos, articulações, habilidades). Neste campo, o método também se ampara em técnicas de dança e, mais recentemente, no trabalho de Miriam Braga;(pilates/rolfing/gds/bertazzo)
  • Conhecimento expressivo – apesar de estar fundada no conhecimento mecânico, a pesquisa do corpo expressivo considera o corpo como fonte expressiva. Para a preparação cênica, propomos estudos sobre intenção, expressividade das partes do corpo e do todo, máscara facial, corporificação das emoções, construção corporal de personagens.

Movimento estruturado

Na história da dança, Rudolf Laban destaca-se por ter aberto espaço para uma nova concepção da linguagem, tendo deixado um grande legado, que é a classificação minuciosa dos elementos que compõem o movimento humano.
Laban foi um dos primeiros a perceber em profundidade a estrutura e o conteúdo do movimento, partindo do princípio de que dança é uma linguagem que deve comunicar a partir dos movimentos dos dançarinos no espaço.
O pensamento de Laban – hoje chamado de coreologia –, desenvolvido atualmente por sua discípula Valerie Preston Dunlop e organizado na conhecida “estrela labaniana”, é a base fundamental para se entender e estudar, no teatro do Movimento, o que Lenora define como Movimento Estruturado.
“A estrutura do movimento é aquela realizada pelo corpo cênico, organizando-se em um contexto de modo a dar sentido aos conteúdos e imagens da dança, assim como as palavras e frases servem para estruturar um discurso”, afirma Lenora Lobo em seu livro Arte da Composição – Teatro do Movimento (LGE Editora).
São cinco os componentes estruturais do movimento que formalizam-se na estrela labaniana: corpo; ações; espaço, dinâmica e relacionamento.

 

A estrela labaniana

Ao movimento, propõe-se a imagem de uma estrela de cinco pontas. Em cada uma delas, um dos componentes estruturais do movimento:

  • um corpo em coordenação
  • uma variedade de ações
  • uma forma espacial
  • uma frase dinâmica
  • um relacionamento determinado

Os cinco componentes encontram-se no movimento humano. Bailarinos e coreógrafos podem começar seus estudos ou improvisos a partir de um dos cinco componentes da estrela. Ao executar o movimento, os demais componentes vão agregando-se ao componente inicial. Inúmeras combinações podem surgir a partir desses elementos estruturais, originando frases coreográficas e vocabulários diversos.
Conforme lembra Lenora Lobo, os movimentos são os ingredientes que se unem e se estruturam para dar sentido à dança. A seleção e a ligação entre as frases, assim como a combinação dos cinco componentes do movimento, caracterizam códigos e padrões de determinados vocabulários encontrados na dança clássica, moderna ou contemporânea.

O imaginário criativo

“No ato de criação, o corpo revela plenamente informações guardadas na memória corporal e processadas na imaginação”, explica Lenora Lobo ao se referir ao terceiro vértice do Triângulo da Composição: o imaginário criativo. Vários são os processos criativos que podem ser desenvolvidos pelo artista, prossegue a autora. Segundo ela, cabe ao diretor ou professor o papel de instigar tais processos, mas respeitando a investigação e as diferenças de cada indivíduo.
No imaginário criativo, iniciam-se novos motivos, impulsos, conteúdos e ideias a partir de onde se corporificam as linguagens. O imaginário criativo é onde cada artista toma consciência do que quer expressar e dos motivos dessa expressão.
Nele, encontram-se os componentes que desencadeiam a criação: percepção, atenção, inspiração, sensação, intuição, imaginação, sonhos, devaneios, memória, associações, sentimentos e emoções. É na interação desses componentes que surgem os insights.
No Teatro do Movimento, o vértice imaginário criativo serve para estimular o desenvolvimento da imaginação criativa do artista. Este, por sua vez, deve evocar as imagens guardadas na memória e concebê-las em sua imaginação, corporificando esses conteúdos em linguagem não verbal.
Para o trabalho didático com esse vértice, são usados três procedimentos: sensibilização, improvisação e conclusão. Tais procedimentos referem-se aos seguintes aspectos:

  • Estímulos à criação
  • Estímulos básicos ao movimento
  • Improvisação e investigação
  • Seleção de imagens corporais
  • Configuração e forma
  • Construção de pequenas frases ou cenas
  • Análise

 

Laboratório Origem

O Laboratório Origem foi criado por Lenora Lobo no contexto do Teatro do Movimento para facilitar ao aluno ou ao artista o contato com alguns recortes da sua memória corporal e afetiva em uma tentativa de estimular um ‘olhar interior’ em busca de suas próprias origens. “Não podemos separar o artista de sua condição humana, impregnada de histórias, afetividades e padrões mentais”, esclarece Lenora Lobo.
O mergulho no laboratório requer do praticante o conhecimento prévio dos fundamentos do corpo cênico e do movimento estruturado.
O estímulo à manifestação das memórias individuais favorece o acesso à história pessoal de cada um, permitindo o contato com emoções profundas, que irão se manifestar por meio de movimentos e ações – ou ainda revelar bloqueios que deverão ser superados.
Àquele que conduz o processo do laboratório, cabe direcionar os conteúdos que surgem para a criação artística, colhendo desse processo todo o material de trabalho para a elaboração da dança.


Mulheres em meu quintal foto Rafael Mendes

Marcas foto Mila petrillo

Texto e revisao de Jaime Gesisky