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Teatro do Movimento, um método para o intérprete-criador

Edição 2007, Brasília:LGE
Novo prefácio ou sobre um método que ganhou mundo
Cássia Navas

Teatro do Movimento, um método para o intérprete-criador foi lançado em cerimônias especiais, festivais, encontros, foi sendo lido e aplicado, chegando-nos, de pouco em pouco, os ecos de sua recepção. O mais contundente de todos eles? A sua capacidade de organização de determinados percursos para o ensino e criação em artes do espetáculo, para muitos profissionais da pesquisa/docência.

A forma da estrutura de sua linguagem também marca uma grande parte dos comentários: a leitura flui e dá margem a pensamentos outros, dando passagem à criação.

A segunda edição revisada, de novo prefaciada e introduzida, destina-se a alcançar um maior número de leitores, sendo que a continuidade da sistematização de aspectos inéditos do trabalho de Lenora Lobo já está sendo planejada para outra publicação.

Tenho aplicado certos princípios do “Teatro do Movimento” em aulas na Graduação em Dança/DACO/Instituto de Artes/UNICAMP, sobretudo como suporte na análise da obra coreográfica, através de conteúdos articulados: dramaturgia, performance e habilidades técnicas, o que vem contribuindo para a elaboração de um arcabouço de análise teórica em dança, apontando-se para uma teoria tout court.

Acredito que a tessitura da atividade em dança – já elaborada e em elaboração, em meio às atividades tantas: miríades de pensamentos construídos a partir da ação cotidiana em sala de aula, palestras, escritos, ações políticas, técnicas e artísticas baseadas em estudos aplicados, ganha força e validação mediante a conjugação de esforços entre profissionais do setor.

A grafia, co-realizada, do método de Lenora Lobo, foi uma especial e rara possibilidade deste tipo de trabalho compartilhado. A nova edição é ainda fruto dela. O labor despendido em sua realização espraia-se, individual e coletivamente, por outras ações na área, tendo sido um exemplo de embate para a estruturação de uma ética em dança, que se deseja alargada a cada dia.

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Arte da Composição – Teatro do Movimento

Edição 2008, Brasília: LGE
Prefácio
Cássia Navas

Arte da Composição – Teatro do Movimento propõe uma sistematização dos processos em dança articulando criação e formação a partir da experiência de uma criadora do Brasil, a coreógrafa, bailarina, diretora e professora Lenora Lobo.

Como continuação do realizado em seu livro anterior, Teatro do Movimento, um método para o intérprete-criador, o novo trabalho estrutura-se a partir de uma parceria entre nós, também autoras desse primeiro livro, a partir de um método para intérpretes-criadores – designação usada por Lenora Lobo no processo de elaboração do seu método para atores e bailarinos.

Neste livro, apresentamos um mapa amplo sobre as paradoxalmente precisas e nebulosas dinâmicas da criação de uma obra em dança. Para a elaboração de sua escritura, as estratégias e opções que conduziram essa parceria foram singulares.

Na primeira obra, escrevemos a quatro mãos, assinando textos especificamente diferentes. Aqui, o texto segue sempre em primeira pessoa: a voz de Lenora Lobo ecoando a partir de sua experiência.

Minha função foi a de trabalhar essa escritura, reescrevendo contextos e problematizando conteúdos. Com atenção e cuidado, foi mantido o essencial do estilo da artista para que se preservasse a originalidade da “matéria vertente da vida” nas palavras aqui grafadas, baseadas em sua trajetória dedicada à arte do movimento.

No apontamento de caminhos iniciais, percebemos que esta seria a maneira mais apropriada para a proposição de reflexões e estratégias de criação em dança, formadas de sutis e delicadas fronteiras entre campos e saberes.

A segurança de Lenora em falar de processos formativos e pedagógicos – base da realização da primeira publicação – mesclou-se a uma imprecisão de fundo, típica entre criadores que se lançam a falar da origem de suas obras e do modo primevo da manifestação de temas corporais ou dramatúrgicos. Esse “estado de imprecisão” perpassa um tanto desses escritos por meio dos quais se almeja o compartilhamento de informações entre artistas, estudantes e alunos. Por isso também foi insistentemente perseguida uma linguagem mais poética e comum a todos, tarefa nem sempre fácil de ser realizada.

Lenora Lobo é uma artista moderna, interessada nas estruturas e causas da arte com que trabalha. Para desvendá-las no fazer diário e no discurso verbal que estabelece sobre o assunto, lança mão de procedimentos e conhecimentos de estudos acadêmicos. A partir deles, trabalha livremente os conceitos, sobretudo aqueles que ecoam em sua prática nos estúdios e salas de aula, tomando-os muitas vezes como metáforas.

Tanto nesta publicação como no Teatro do Movimento, um método para o intérprete-criador tais metáforas devem ser encaradas como uma apropriação artística de conteúdos acadêmicos e não o inverso, o que teria demandado um rigor científico e metodológico diferente da opção aqui tomada.

Na elaboração deste estudo, de cunho poético e autoral, Lenora Lobo contou com a colaboração fundamental e constante da professora, atriz e diretora Neuza Deconto, tendo os terapeutas Paulo M. Gaiarsa Nadeesh, Madalena Santiago e Sara Joffily lhe concedido três entrevistas pontuais para a elucidação de questões inerentes aos conteúdos que vieram compor nossa escritura.

Manteve ainda profícuos diálogos com dois de seus “parceiros da dança”: a professora-pesquisadora Márcia Almeida e o designer-pesquisador Maurício Gaspar, que há pouco, e de súbito, deixou o palco deste mundo.

À semelhança de publicações de dança, foi também estabelecida uma intensa dinâmica entre textos verbais e textos visuais, resultando-se a original programação visual do livro, assinada por Wagner Hermusche, com ilustrações de Ione Coelho.

A mim coube, em primeiro lugar, o desvelamento de conteúdos, mediante procedimentos científicos de pesquisa em arte, sobretudo quando são inquiridos os motivos e formas de sua origem. Neste momento, escapam-nos as palavras estruturadas em discursos lineares e afloram belas metáforas sobre as causas e os caminhos da criação.

No trabalho, são necessários paciência de alma e porosidade de sentidos a fim de que se leia/veja o todo da arte que se apresenta inteiro, sem decupações, como mônadas de significados cujos conteúdos se remetem entre si.

A partir de cada frágil e ao mesmo tempo potente metáfora, inicia-se a tradução das idéias cujos vetores desembaraçados conduzem a uma escritura mais ordenada, alongada em frases, parágrafos, capítulos, ilustrações e fotos organizados em índices, títulos, intertítulos e apêndices.

Em segundo lugar, coube-me a reescritura de um texto de arte feito a partir de vigorosa experiência artística. Neste labor de escuta organizacional, agi como uma diretora de cena de palavras sobre o papel, sendo a função de Lenora Lobo aquela de uma coreógrafa de textos notadamente verbais.

A partir dessa forma de escritura, assinamos juntas este texto, apresentando um novo formato de autoria no qual se entrelaçam procedimentos contemporâneos de pesquisa e criação.

O livro está organizado em quatro partes principais. A primeira – Composição e o Teatro do Movimento, retoma sinteticamente fundamentos, sobretudo aqueles relativos à essencial “tríade da composição”. Estas informações podem ser encontradas de maneira extensa em Teatro do Movimento, um método para o intérprete-criador.

Na segunda – Nascentes, organizam-se reflexões sobre a criação e suas origens e na terceira – Percursos do fluxo criativo, apresenta-se o “coração da matéria” da arte da composição. No bloco final- Grafias poéticas: Lenora Lobo e Alaya Dança,  inscreve-se por palavras e imagens a história viva da arte, base das reflexões aqui sistematizadas: são grafias de obras de Lenora Lobo e dos intérpretes-criadores por ela dirigidos na Companhia Alaya de Dança.

Articulados, os conteúdos dos quatro blocos propõem estratégias e procedimentos sobre a arte da composição, a atividade de escrever em dança:  propor grafias, compor cenas e realizar a obra em si, para, mediante a circulação de sentidos entre artistas e públicos, produzir conhecimento e expressão.