
Foto: Sátiro Valença

Foto: Dalton Camargos

Foto: Mila Petrillo

Foto: Sátiro Valença

Foto: Mila Petrillo
A criação. Uma experiência de improvisação
Nós cuidamos do corpo, não porque ele é o templo de alguma coisa; ele é essa alguma coisa. Ele é esse sagrado. Cada célula é o sagrado se manifestando. Não tem um sagrado dentro deste corpo em algum lugar; tudo é o sagrado. Precisamos respeitar e cuidar. Às vezes, as pessoas respeitam muito os altares, ou alguém que acham especiais, mas não respeitam a si mesmos. O sagrado está manifesto em tudo e todos o tempo todo.
Monja Coen
Dedicatória
Vida querida que é muito, muito. Muita satisfação. Tenho tudo. Tenho tudo. Poder e irreverência do filho meu e da pedra mar que racha, mas não quebra – Pedra Ita – Pedra Pai. Pai do Ravi. Itamar. Como posso ser infeliz se a felicidade me é constância e deliciosamente sigo dia a dia e as horas não passam. Passam e não vejo. Passado e sempre presença. Passando a limpo o que nunca foi sujo. Nada não é vazio. Nada é um buraco em construção com fundo e sem. Tantos chocolates, Ravi! Tão menino, o Ravi. Ele é o sol a brilhar iluminando nossas vidas. Voar com gaiola e tudo. João. Meu irmão que deixou marcas. Não tem riso, tem gargalhada. Batismo de João nas águas do Jordão. A conjunção do verbo ser no mais profundo significado. Muito obrigada, João. Reverencio seu nome, sua presença e amizade.
Dedico este texto a eles: Itamar, Ravi e João.
Agradeço a Leda Bosi de Magalhães pela correção do texto e sempre amizade.
O parto
Traga-o de volta. Ninguém poderia supor que estamos diante de um incompleto ciclo da vida. Nascer, ver-se entre. No ventre. Este corpo amaciado pelos desígnios do grande mistério. O que o faz nascer? São tempestades as minhas. Estou sacudida pela vida. Quanto mais vivo, mais a percebo valorosa, experimental, sutil, espessa. Estou sacudida por tudo e esse tudo é nada. Amo a mais completa solidão e perto dela, a insônia. Quero viver cada pingo de chuva, o vento, a morte que vem. Se existe a noite, existe o dia. Não há permanência. O que tenho a dizer sobre este tratado perfeito, o corpo. Veículo de incessantes transformações. Já o tenho feito vivendo, fazendo-o dançar, dando os rodopios na espiral existência.
Tratá-lo-ei na poesia
Tratá-lo-ei em música
Tratá-lo-ei em pintura
Tratá-lo-ei em tela
Tratá-lo-ei em pincel e tinta
Tratá-lo-ei em sensação, percepção, diferenciação
Tratá-lo-ei em preto e branco
Que gratuidade! (Aida Marise Cruz)
Introdução
Pensamentos e lembranças. Ao escrever, revejo cada momento. Como um filme rodando as cenas onde me fiz em várias, múltiplas. Este saudosismo é particularmente prazeroso. A memória tem um gosto, é palatável. É um doce néctar a jorrar sobre um solo sempre fértil. Ao mesmo tempo, tento anular os momentos de dificuldades que sempre fazem parte da nossa caminhada. Agora eles não são relevantes. As lembranças são boas. Como escrever acerca desta experiência coletiva, individual? É importante lembrar-se de um percurso quando ele se fez longo e contínuo, quase ininterrupto. Memórias. Porque estou no Alaya Dança há 20 anos.
Quando comecei a ler o livro que Lenora Lobo escreveu em parceria com Cássia Navas, pensei: como pode tudo isso? Quando danço e me expresso não me dou conta deste tesouro todo guardado no cofre. Este tesouro as escritoras souberam mapear, pontuando cada etapa, facilitando a viagem do ator, dançarino, enfim, aqueles que pretendem se firmar no ofício de dançar. Dançar a vida. Destaco aqui o laboratório vivo chamado Alaya Dança. Talvez aí sim, o tesouro. Porque sem este grupo de pessoas, colaboradores, não poderíamos experienciar, gozar da fortuna e fartura da convivência.
Posta em execução permanente através de repertórios os mais variados, a Companhia se viu consolidada através da experiência de sua coreógrafa e fundadora, Lenora Lobo, que tão generosamente nos ofereceu espaço de criação oportunizando, também, a formatação do Método Teatro do Movimento. E andamos muito.
Alaya (do sânscrito – alaya – vijnana) consciência repositório. É um depósito, já que todas as experiências, boas e más, estão lá comprimidas e guardadas, desde tempos remotos. Essa experiência acumulada é a base de cada personalidade ou caráter individual. (…) Nunca se esquece nem de uma única ação. Por causa das experiências passadas e presentes, cada personalidade individual é única, mas mutável…
É muito interessante este significado. Profundo como as vivências nossas. Hoje, formamos um grupo de pessoas que escreve as recordações. Um grupo. Aos poucos se juntando em uma casa situada em uma quadra na Asa Norte, em Brasília. A casa da comida. Feita para ser o repositório do alimento físico e, daí em diante, o alimento da criação, do movimento, da beleza e segredo da mais escondida vontade – dançar. Um grupo de dança. Mas era uma dança muito diferente. Porque para fazer mover o todo, as partes precisavam ser entendidas num entendimento minucioso. As partes até então adormecidas, nasciam de um parto normal. Uma construção quase arquitetônica desenvolvida através de um método elaborado e pensado para alcançar a plenitude na dança e, creio, para a nossa vida.
O começo
A dança clássica foi a primeira experiência enquanto criança e adolescente. Formação importante para moldar não somente o corpo, mas também a atitude, para poder atuar e observar outras artes como o teatro, a literatura e o cinema. Acontece um lapidar contínuo quando adentramos rumo à vida incessante. Trazemos em nós uma jornada feita minuto a minuto. Tudo que aprendemos fica como um selo, impregnado. Velho cinema da cidade e seus filmes bang-bang, as leituras de livros infantis, o circo, os loucos andantes, os banhos de chuva, a banda de música, os amigos, nossos relacionamentos. Nas partes, o TODO.
O teatro, feito junto aos amigos de colégio, da turminha do clube Uirapuru com as meninas da dança, a excitação ao ler os textos. Tomar pé, ir ao mundo do autor, de quem escreveu e ousou. Tive uma infância privilegiada. Muita aventura, desventura. Cresci num ambiente de cidade pequena cheio de artistas populares e muita religiosidade. E porque em mim estão, é que não poderia esquecê-los.
Sigo no tempo. Chego à cidade grande e me aparecem os livros de Isadora Duncan (1877-1927), os vídeos de Pina Bausch (1940-2010), tão inspiradoras em minha vida. O espírito de liberdade criativa e observação incessante.
É difícil, e tarefa por vezes traiçoeira, mencionar pessoas e coisas em nossa vida. Podemos ressaltar uns e deixar outros. Mas gostaria de frizar novamente a importância da vida de todos para minha vida. Cohabitar.
Em contato com o método diário do movimento
Eu queria me aproximar das coisas belas. Numa noite, assisti a uma mulher dançando sensualmente sobre um banco. Disse a mim mesma: isso é belo. Causou-me torpor. Fui falar com aquela moça e a gente se conheceu. De outra feita, ela indicou um local onde se juntava a outras pessoas com a intenção de movimentar a imaginação.
Fazíamos coisas diferentes. Coisas nas quais jamais pensei. Palavras novas, um ritmo e estrutura de aulas que jamais presenciei. Uma desestrutura total. O vocabulário da diagonal, espaço interior, descolar, relaxar, fluxo, tônus, dobradiças. Fazia-se muita experimentação, às vezes com palavras, essas mesmo, as tais diagonais, e ainda os laboratórios. Eu, que recém-chegada de Goiás, sozinha e dividida, medo e insegurança, revelava todas essas sensações mentais nos tais laboratórios. Sensações de desajeito, satisfação, como algo a nascer, meio aos poucos. Vinha de escola de dança clássica.
Voltemos às diagonais. E as diagonais me causavam calafrios e mal estar. Os outros me observavam e era como se estivesse exposta em uma vitrine de loja. Um jeito caótico e óbvio de fazer as coisas. Mas eu percebia que estava num lugar diferente e gostava disso. Pobrezinho lar. Agora, já não tão pobre. O que aconteceu? Houve uma persistência nisso tudo: os tais ensaios, os encontros e repetidas vezes fazíamos movimentos de acordar os ossos. Isso mesmo. Acordar os ossos. Os ossos e também os músculos, os nervos, a pele, os poros. Acordar. Bom, de que lado fica o fígado? Assim, passei a me conhecer.
O bom mesmo era poder falar da minha vida e ouvir sobre a vida dos outros. Um dia falei assim: meu pai trabalha na Antártica. Sou balzaquiana. Quero ter um filho. Foi uma frase da minha vida e do contexto do momento. Percebia que a fala estava mais firme e com convicção. Tinha presença. A brava moça deitava seu véu e se revelava. E tudo, em consequência, foi se firmando. A ousadia chegava solta. Já conseguia entender o que era espaço dentro e fora, caminhar nele, por ele. Abraçar o espaço e acariciá-lo. Tudo era muito bonito da cintura para cima. Minhas pernas ainda estavam presas no barro frio das estradas do interior do Brasil. Locomoção lenta e pesada e esses nomes também eram novos para mim. Eu pensava demais. O medo ainda persistia. O pensamento rápido a querer, mas as pernas… Cadê as pernas? Presa embaixo, solta em cima. Tem problema não. Tinha raízes e elas eram bem fixas. Eu sabia andar descalça pelas enxuradas, pelos fundos dos rios, pelas pedras, na areia. Já sabia dar um passo, dois, três. E quando eu andava, era a sombra de Deus.
Desdobramentos. Dobradiças. Será que minha memória está nas dobradiças, nas articulações, no sangue, nos pés, nas mãos? Onde está minha memória? Quem sou eu? Essas inquietações surgiam. Quanto mais sacudia as partes, quanto mais vibrava meus músculos, pele, ossos, mais vinha um recatado desejo de colocar um vestido e dançar por aí, por aqui, por lá.
Os anos passando e sempre novos descobrimentos. Quanto mais conhecia as inúmeras possibilidades de movimento, mais viva e cheia de graça eu ficava. Já arriscava com ímpeto nos momentos da improvisação. E era do que mais gostava.
Eu pensava e fazia. Eu ia como um rio caudaloso. Não tinha nada de errado comigo. Não tinha nada errado. Não tinha nada. Deixei de mão essa história do virtuosismo da dança clássica. Deixei o medo ir embora nas diagonais. A válvula de escape era o riso fácil e nervoso. Porque cada um sabe de seus temores. Improvisar me dava uma liberdade incomensurável.
É interessante, pois sempre que fazia os experimentos surgiam imagens mentais que me remetiam ao aspecto religioso, “espiritual” das coisas, das ações, dos movimentos. Sentia-me muito próxima do meu passado. Muito próxima das novenas e ladainhas de que seguidamente minha família participava. Muito próxima das comadres fofoqueiras que minha mãe visitava diariamente.
Um saboroso período em minha vida surgia. Atraiam-me aqueles laboratórios onde era notório um despreendimento e onde, na prática, via-se o resultado das aulas-estudos que recebíamos. Parecia até uma terapia coletiva.
A vida seguia. Casei, descasei. Meu pai ainda trabalhava na Antártica e eu não bebia. Eu era bebida pela vida.
E novamente casei. Morreu meu pai, nasceu meu filho. A vida que nunca cessa e dispensa qualquer reação rude quando se perde seres queridos. Chorei. Choro. Isso sustenta minha criação e meu permanecer.
A cozinha
Eu canto na cozinha. Canto por todos e todas a canção da loucura desmedida. A canção das grades do pensamento que gosta, não gosta, ama, odeia, acolhe, deixa pra lá. Quando canto, danço, e não tem lugar melhor para fazer do movimento ele mesmo. Na casa – a cozinha. Eu considero verdadeiramente este espaço sagrado. Me alimento do sopro da água, do movimento do fogo, das células do pó do chão. Me alimento dos poetas, Walt Whitman em suas Folhas de Relva. Me alimento de Adélia Prado, de Cora Coralina. Me alimento da vida de meu filho. Me alimento dos homens e mulheres de todas as partes do mundo. Os fracos, os fortes, os que se julgam, subjulgam. Me alimento dos mistérios do mundo.
Minha cozinha goiana seus saberes e sabores. Ponto de partida para a preparação do que chamo livre influência no espaço tempo. Penso que não seja intencional que tudo venha a acontecer de fato. O que se passa na cozinha fica guardado e submerge quando vou elaborar algumas cenas. São recursos de experimentação livre, sem o rigor do olhar crítico. Com a provação de cada sabor, sentindo todos os cheiros, ouvindo todos os sons.
Todas as mulheres: 1- Maria a Rainha da Folia; 2- As Marias; 3- Cora; 4- Tekoha são fruto de uma vontade de expressar o feminino nas mais diversas situações e circunstâncias, neste terreiro que me é particular. Com quantas Marias já vivi? Nem eu sei. Quantas sou? Assim disse o velho Whitman: “Sou contraditório. Tenho milhões dentro de mim.”
Pronto. Estou na cozinha. Sentada em um banco. Ao sentir sede, vou até o copo. Faço isto repetidas vezes. Começo a ter gosto ao repetir a ação. Nesta repetição já criei movimentos vários e ao fazê-los dei por uma sensação de fazer e depois abandonar. Foi só aquele momento. Foi uma experiência. Quando penso, minutos depois, tudo se esvai. Contudo, posso repetir o que fiz no trajeto em direção ao copo lá adiante, numa cena que porventura venha fazer. Já usei este recurso inúmeras vezes.
Segundo John Dewey, “a experiência ocorre continuamente, porque a interação do ser vivo com as condições ambientais está envolvida no próprio processo de viver. Na situações de resistência e conflito, os aspectos e elementos do eu do mundo implicados nessa interação modificam a experiência com emoções e idéias, de modo que emerge a intenção consciente.” Posso, todavia, deixá-la instantaneamente. Mas se, porventura, quero colocá-la a serviço de um fazer lá adiante, pela repetição desta experiência, outros contornos vão ocorrendo pelo simples fato de que, ao repeti-la, outras sensações e percepções são vivenciadas.
A criação não requer um local e tempo específicos. Tudo pode. Ela se dá a todo instante. Aperceber-se das situações e dar vida a elas. Cada experiência acrescenta como recurso quando se vai criar. Mas a criação também tem seus momentos de dor. É quando questionamos o que estamos fazendo, para quê, por quê, onde vai dar. Coisas da nossa vida pessoal, afazeres, distrações, às vezes atrapalham, mas lá adiante quando se está para iniciar uma pesquisa ou mesmo fazer uma apresentação de algum repertório já estruturado, tudo soma e o resultado é um estar a serviço.
Sempre questiono por que estou dançando. Percebo as mudanças ocorridas em mim desde o período em que iniciei minhas aulas de ballet clássico, jazz e teatro. Houve uma transformação. Houve mudanças de comportamento como uma considerável autoestima, facilidade para socialização, disciplina e, também, maior gosto por artes plásticas, bons livros, cinema. Afora isto, sempre mantive um compromisso quanto às aulas práticas e ensaios. Parece que eu estava vivendo períodos de uma vida já vivida. Nunca foi fácil, mas as dificuldades se diluíam por si mesmas.
O psicólogo jungiano James Hilman faz uma abordagem interessante quando afirma que cada pessoa entra neste mundo atendendo a um chamado. Ele exemplifica a árvore do carvalho, que, mesmo antes de nascer, seu destino já se encontra em sua semente. E que existe a semente podre e a semente sã. Moram em nós as duas sementes. Que a teoria para isso se explica em alguns personagens de nossa história como o ditador alemão Adolf Hitler e o toureiro espanhol Manolete.
Então, se assim é, para qual semente temos vocação? Em qual semente jogarei água e adubo? Será a semente da indolência, da preguiça e da arrogância? Será a semente do já sei e ninguém sabe, posso dominar o mundo? Ou a semente do dominar a si mesmo, do esforço contínuo, para construção do belo? Porque em tudo que se faça na vida e do qual tem sentido para nós, há que se fazer com diligência e empenho. Se descobrimos qual a nossa vocação temos que evocá-la constantemente. É o que diz em suas sábias palavras, Guimarães Rosa: “O que vou saber, sem saber, eu já sabia”.
Busco regar a semente da possibilidade de criação espontânea na dança, porque ela é um caminho que escolhi. Eu busco regar o interesse pela poesia que poetas escrevem e depois me vejo tocada e compelida para assim também fazer. Eu busco o exemplo em outras sementes (pessoas) que dedicaram e dedicam suas vidas ao poder transformador de seu ofício.
Uso o título da cozinha e lembro dos bons compositores da MPB. Vários deles usam o recurso de observar, recolher, escrever para depois lançar sua obra. E sempre nos identificamos com um ou outro refrão ou com o sabor da melodia. O ato de criação requer estar receptivo a tudo. Seja do amor não correspondido, da solidão, da alegria ou mesmo de um sentimento de inconformismo. São infindáveis os momentos que a vida nos oferece para usufruto. A vida é nosso mais valioso laboratório.
Ao sabor da experimentação
Porque dançar traz uma sensação de prazer e desmedido sabor de novo, de velho, momentos e momentos, fragmentos, pois todo o tempo a vida pulsa. O filósofo português José Gil em sua obra nos pergunta: “Como a dança transforma o corpo comum?” e mais adiante, “a dança põe o corpo em movimento, porque o corpo já está em movimento (movimento dos órgãos; movimento tensional que mantém a vida; movimento do cérebro e dos pensamentos; movimento no equilíbrio da posição do pé, (…) De uma maneira geral não há uma única posição do corpo que seja estática. O corpo mexe-se sempre imperceptivelmente porque está sempre em equilíbrio tensional.” Mas, arrisco a dizer que algo mais entra em ebulição. Pois se estou conectada à vida plena, a dança se fará também plena de beleza e sentido.
Transcendência além da forma, sujeitando-se a repetições, treinamentos infindáveis até que venha o instinto no que já está sendo preparado. A técnica proporciona uma estrutura, uma formação. Adquiri noções de espaço e tempo, o que seja o leve e o pesado, dentro da força de atração e repulsa.
A vida humana é cheia de atividades que se tornam automáticas e só podem ser perfeitamente desempenhadas através da prática. Ações simples como andar, sentar, ficar em pé, adquirem contrastes diferentes feito com consciência dessas ações; em qualquer ocupação, um alto grau de habilidade pressupõe treinamento.
Contudo, creio no arriscar. Creio no movimento além dos órgãos dos sentidos. E por isso me permito entrar no jogo de sedução em relação ao outro. Acredito que algo jaz latente, mesmo antes de tudo. Antes de ser.
Improvisação – estar aberto e receptivo
Compreensão, maturação, caos, liberdade – IMPROVISAÇÃO. Nela acredito. E doravante tentarei fazer justiça à minha musa inspiradora. Que, naturalmente, se viu fortalecida por um ordenamento feito em aulas práticas. Incalculáveis observações dos pés à cabeça – dentro e fora – espaço – dinâmica – RELACIONAMENTO.
Improvisar, segundo o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, é: fazer, arranjar, inventar ou preparar às pressas, de repente. Arvorar-se. E Stephen Nachmanovitch muito bem a expressa: “a pessoa que improvisa não opera a partir de um vácuo, mas de três bilhões de anos de evolução orgânica: tudo o que já fomos está codificado em algum lugar dentro de nós… o divino dentro de nós.” . Soma-se a isto, um rigoroso observar. Absorção de influências que vão desde a literatura, pintura, teatro, música e da vida diária cheia de imprevistos e beleza.
Improvisar é dar um destino apropriado. Correr riscos e, apesar deles, saltar no escuro. De repente. É ter uma visão de antes, durante e depois. Manter-se constantemente acordada, desperta para abstrair tudo. Na improvisação não existe trapaça. Não posso, enquanto artista, revelar aquilo que não é. Pois que já é. Arranjar às pressas aquilo que não existe. Pois que já existe.
Um olhar de abandono, uma sensação do que fazer diante da vastidão, a ansiedade de movimentar. Tudo ainda sem direção, tudo ainda por vir. Esse é o momento. O dragão está adormecido. O que ora era chama, agora o fogo que queima. Prepare as malas. É uma viagem.
Do nada? Não. Da longa estrada e seu percurso. Das minúcias e minutos. Improvisar, deixar as pétalas ao vento. Talvez você nunca mais repita o que fez. Por isso esse é o momento do inteiro e completo. Onde o mental não alcança, porque, se assim fosse, haveria uma seleção. Se seleciono, discrimino. Eu sempre apostei no de repente. Eu acredito no antes da seleção.
Na explosão da criação
Na improvisação, não podemos discriminar. Se assim faço, elimino a doce presença de todas as coisas que vibram e das quais necessito interagir. Desde a parede, o chão, as cadeiras, as luzes, a escuridão. É da minha relação com o inusitado que surge a minha relação com tudo à volta. Quanto chego, cheguei. Quando me retiro, vou. E não há espaço entre ambos.
É como um raio. Uma inteligência aguçada e voraz. Improvisar é se colocar como um bicho à espreita da caça: o menor descuido, a presa foge. Penso que há um equívoco em relação ao sentido da palavra improvisar. Parece que vou fazer um remendo e vou deixar algo incompleto, mal feito. Mas ao dançar este remendo tem que ficar mais compreensível, ganhar uma evidência que fuja da ideia de uma ação feita sem domínio. Até para remendar requer domínio. Vamos lá. Lá vem o redemoinho.
A dança que faço tem a ver com minhas atividades diárias. Onde mais poderia estar exceto onde estou? Nesta construção de agora, posso brincar e sair correndo em contrapartida ao óbvio.
Jamais me critiquei durante as improvisações. O que talvez ainda persista
hoje em dia é a resistência no momento de coreografar aquilo que fiz tão livremente de uma forma tão sem forma, com intenção, sem intenção. Isso sim. Não dou crédito a estruturas que são formalizadas para acabar uma obra. Mas também aceito e sigo. Fazer o que tem que ser e pronto. Coreografar ainda é um paradoxo. Sei de sua importância, mas ainda resisto.
Eu preciso da loucura
Chega mais, olha para mim. Eu te devoro. Me dê um sapato. Talvez não vá calçá-lo. Posso colocá-lo na boca, como um cão a brincar. Meu abraço será um esquivar rápido. Minhas roupas o tapete onde vais pisar. Não vais ouvir minha voz. Minha presença falará.
Busquemos as estruturas para desestruturá-las. Onde estará nossa criatividade? Pegar algo e transformá-lo. Pensemos nestas possibilidades.
Estou no palco com várias pessoas, dançando. Ou posso estar sozinha. Acontece uma falha de iluminação. O som não entrou na hora certa. Caí no palco. O elemento cênico quebrou ou não está no lugar certo. Nada deu certo. Ficamos perdidos. Transmito insegurança. Como reverter esta situação? O que fazer? Que alternativas tenho? A alternativa é entrar na confusão e submergir.
Não podemos pensar. É tudo muito rápido. A alternativa possível vem com a maturação da experiência. A experiência do acúmulo. A vivência com situações inusitadas. Posso fazer planos, organizar uma agenda. Sim, posso. Mas amanhã acordo doente e sem forças. Estou mal. Nada do que pensei e planejei aconteceu. Preciso ter outras opções. Por isso afirmei a importância da vida cotidiana. Nossa vida é nosso palco maior. Estamos todo o tempo nos reeducando e readequando as situações. Assim também para improvisação.
Fora isso, a técnica em dança, seja ela clássica, moderna ou contemporânea dá suporte para saber usar a alternativa adequada nos imprevistos. Ao improvisar, fico mais exposta ao público e, nesse momento, temos que ser generosos.
Me pergunto, como o Método do Teatro do Movimento chegou a todos da Companhia Alaya Dança de uma forma diferenciada e, mesmo assim, com uma característica bastante peculiar. Cada um de nós, portanto, com a mesma metodologia se viu tomado por caminhos diferenciados. Dançarinos que hoje seguem por áreas distintas, seja na pedagogia, direção teatral, coreógrafos, pesquisadores ou mesmo outros que largaram tudo e foram para outros afazeres. Mas ficou um núcleo. Uma equipe que faz planos e procura executá-los para que a criação seja contínua.
Uma metodologia visa fazer um movimento de acordar e suscitar novas possibilidades de trabalho e ação. No meu caso, o método me favoreceu um sentido de autoconfiança para arriscar. Houve, digamos, uma readequação corporal, sensibilização através dos estímulos lançados durante as aulas e experimentos.
Mas, saltava aos olhos meu envolvimento nos laboratórios criativos. E Lenora Lobo comentou que o processo do laboratório chamado ‘Origem’ foi tão rico que passou a incorporar-se o método Teatro do Movimento, como parte da formação dos atores e dançarinos que dele se cercam, contribuindo na conquista de um vocabulário pessoal. Esse é o ponto crucial. O vocabulário pessoal entra na improvisação como uma flecha em pleno ar. Lançada, não se sabe onde alcançará. É um risco.
Porque improvisar é dar um destino apropriado no tempo e espaço imediatos. Instantaneamente. Correr riscos e, apesar deles, saltar no escuro. Acreditar. A disposição do momento com grande inteireza. De repente. É ter uma visão de antes, durante e depois. Manter-se constantemente acordada, desperta para abstrair tudo. Na improvisação não existe trapaça. Preciso ser; simplesmente.
Eu bem que gostaria de falar desde o princípio acerca da improvisação. Mas não poderia fazê-lo sem antes ter percorrido etapas. Visto que é o tempo que auxilia na maturação das vivências. A técnica se faz importante. A imagem que me vem sobre a técnica é um círculo com um ponto no centro como um mastro fixo trazendo a energia da periferia. O ponto é a energia, a periferia é também energia. Ambas interagem. A periferia é onde acontece a improvisação e o centro é a força suporte. Posso brincar em volta, bailar, comungar, ficar à vontade, sabendo que tenho um centro firme, porém, nunca rígido. O músico Stephen Nachmanovitch fala que para fazer qualquer coisa com arte é preciso adquirir técnica, mas que criamos por meio da nossa técnica e não com ela. Não se pode levá-la tão a sério.
TUDO É NÃO SEPARADO
Mestre Dogen Zenji (1200-1253), monge zen budista japonês, considerado um dos maiores filósofos do Japão, em seu livro Shobogenzo – capítulo UJI – O SER TEMPO, revela que o tempo é inseparável do ser ou da existência – isto é, do espaço e da matéria. Diz ele: “o tempo em si mesmo é um ser. Todo ser é tempo.” Todas as coisas que me acompanham e nas quais estou ligada direta ou indiretamente afetam minha vida. Tudo está o tempo todo interligado. Sou este ser do tempo. Buscando o estado do despertar e este despertar não é necessariamente acompanhado pelo reconhecimento intelectual onde se baseiam os conceitos discriminativos: eu e o outro, pequeno e grande, bom e mau. Estou dentro da grande teia da vida e tenho que percebê-la sem estas discriminações. O que pode o artista buscar senão esta não separação?
Atuar é sempre atual. Definitivamente não existe outro momento separado do aqui, agora. Esta compreensão é bastante significativa para quem se dispõe à criação em arte. No momento que faço já deixo marcas. As marcas ficam. A ação foi feita. Ao fazê-la, as noções de tempo e espaço se fundem.
DEIXAI VIR – DEIXAI – INTUIÇÃO
Quanto eu toco o solo com meus pés, o solo me recebe. As raízes fundidas na terra da infância, da adolescência, da maturidade. Todos os canais estão abertos e quero dançar a vida. Não qualquer dança. Não somente a dança da estrutura formal, mas a dança momento, aquele da experimentação total sem crítica. A dança da liberdade. A dança que faço no quarto, na cozinha, no carro, locais onde posso antever. Crio cenas inusitadas e atemporais. E de novo RELACIONO com. Talvez a poesia me ajude. Socorro poesia, socorro. Gosto da poesia. Ela chega onde as palavras travam. Onde a intenção resvala e, de tonta, morre. Tradução daquilo de sentido, posto a visão e não. Nossa existência, se percebida é puro deleite que só a mente dividida e crítica não tolera. O coração precisa vibrar. O movimento da vida é o movimento da respiração. Sentir mais que explicar. E assim fiz:
Meu corpo vestiu-se de uma pele pequena e emoldurada no ventre de minha mãe. O parto e a parte a querer sair. Minha pele se vestiu de uma criança feliz, menina cujos pés calçavam o ventre da terra sem nenhum limite. Os brindes da infância foram saudados com graça, traquinagem e muitos, muitos, muitos, amigos. Os loucos, os bêbados, as prostitutas jovens. Todos amigos! Longas léguas e vesti o vestido das adolescentes mal amadas. Chorei pelo amor sem resposta. Que escola que nada! Matemática é saber viver da cesta cheia de comida, ou nada dela. A falta do pão. A água puríssima. Português é se virar e revirar em meio às palavras e saber e não saber ser entendida. Ouvir, falar, cheirar, ver, andar e POSSO TUDO. Cada função ser atendida em seus clamores e pedidos. Nadei em águas turvas até meu corpo ser o repositório de outro que é ser mãe. E agora posso vê-lo a enrugar docemente. Doce mente! Intento compreender e aceitar estas transformações. Como somos velhos neste planeta! Passamos por mil e uma fases e faces. Quanto poderíamos falar da massa, do volume, de cada célula transposta, feita de dor e tristeza, alegria e contentamento.
Em frente
Tenho 51 anos. Minha pele que era viçosa e macia, carne cor da moça idade, transformou-se com o tempo. Ainda bem! Meus pensamentos também são outros. Minhas intenções são outras. As paredes da casa movimentando-se silenciosamente.
Neste pequeno texto abordei a importância da improvisação com vínculo na criação. Na minha criação. Criar uma ação. Agora, não necessariamente com vistas à dança. Mas o que compreendi para viver, absorver. Não invalidando, todavia, que tive uma passagem meteórica como instrutora de yoga. Por que julguei ser meteórica?
Há tempos distantes e até o passado recente, fui instrutora de Hatha Yoga. Foi um caminho que me foi aberto e cuja facilidade, um tanto evidente, se deu graças à experiência de muitos anos como dançarina. Pude vivenciar com os alunos o que apreendi. Fazê-los perceptivos de si enquanto seres que se relacionam em busca de saúde, jovialidade e alegria. Todos os processos nos quais passei com meus colegas do Alaya Dança, tentei colocar em prática com pessoas de idades e propósitos variados. Fazê-los tocar a si mesmos com as próprias mãos, sabendo que o corpo, em separado, não é corpo. São partes dele, nele. O corpo mundo, cosmo, gaia. E, se tenho consciência disso, posso fazê-lo funcionar de forma adequada. Não obstante ao treinamento físico, a compreensão do sofisticado e sutil mundo interior.
A yoga trouxe isto. Porque yoga é uma ciência milenar que abrange o mental, o físico e o espiritual. Ao praticá-la, esta divisão se funde e se integra. Todavia, não é meu campo de ação e intenção ser instrutora ou professora de yoga nem tampouco de dança.
Paralelamente aos exercícios psicofísicos da yoga, o zen budismo. A ênfase na concentração através da meditação zazen, (sentar) e Zen (concentração). Observação da respiração, observação dos pensamentos. Um treinamento incessante, porque na medida em que me percebo não separada da vida, das pessoas, da natureza, posso erradicar de vez os infortúnios ligados à exacerbação das situações, percebê-las e modificá-las.
O fato de sentar em silêncio e observar os pensamentos, exigentes e teimosos, o ego, que separa e divide, se observado e controlado, dá suporte para criatividade e liberdade. São meios para nunca chegarmos ao fim. O fim está em cada partícula mutante e sempre em recomeço. E tudo isto auxilia quando danço, pois preciso estar conectada com espaço, pessoas, coisas e muito imbuída de tudo ao redor, para enfim, improvisar.
Uma vez li um texto de Leonardo Boff, teólogo e pensador, que dizia mais ou menos assim: Hoje sabemos que todos os seres provêm dos elementos físicoquímicos que se forjaram no coração das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram. Todos estávamos um dia juntos naquele coração incandescente. Guardamos uma memória cósmica desta nossa ancestralidade.
O que se aprende não vai embora com o tempo. Nem embora vai. Dançar é sempre um recomeço. Recentemente nós, os dançarinos da Companhia Alaya Dança, nos encontramos para organização da etapa prática do projeto Memória. Voltamos às aulas, às lembranças. Fiquei surpresa. Há algum tempo não fazíamos nenhum tipo de exercício, mas retomando-os desta vez, percebi que estava tão solta, mesmo com uns quilinhos a mais. Em todos, uma consciência viva do espaço e uma segurança nas ações de descer, ir ao chão, levantar, cair, as faces, a música, sem música, as relações.
Pois é. É porque já estava que nunca foi embora. Apenas houve facilitação para voltar. Um retorno com tempo definido, mas não definitivo.
Quando a dançarina Christiane Lapa me propôs para que fizesse um trabalho baseado em um poema de Cora Coralina, para seu final de curso na Universidade de Brasília, aceitei de pronto. E Cora Coralina, autodidata, intuição de mulher do lavor, cotidiana como o nascer do sol e o cantar dos pássaros. A mulher dos doces, da fala arrastada, enérgica, da vestimenta simples, em um de seus poemas diz: “Eu venho de milênios. Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e fecundada no escuro ventre da terra”.
Maio de 2011 – acontecimentos inusitados no planeta. Mudanças. Dinheiro, desordem, ordem, caos, chuva, seca, floresta, código indecifrável. Eu. Eu. Eu. Caiu no mar. O pano branco. Projetos. Projétil. Lançamento no caixa. Pagamos. Não recebemos. Briga. Nasceu. Morreu. Suicídio. Noite em claro. Com o sol, o sono. Quem conduz? O sexo na pauta – supremo – casou um homem, casou uma mulher. Juntos, separados. Escola na degola. Meninos e meninas e o mundo viu. Movimento sem movimento. Movimento tudo. Movimento nas dez direções. Nem bom, nem mau. Nem quente, nem frio. Sem perceber, sem emoção, sem razão. Corpo? Palavra inadequada. A boca que fere. Na TV, no papel. O santo de metralhadora. Ela doente. Corruptos. Coração rompido. A intromissão. A cura.
O multiverso dança. E tudo se revela assim como é.
Conclusão
Quer dançar comigo?
